"Se o pai é o alho e a mãe a cebola, o filho não pode cheirar bem." Provérbio árabe
terça-feira, 23 de novembro de 2010
O documentário 'José e Pilar'
Com a morte de Saramago, Pilar, a viúva, ganha uma visibilidade diferente. Ela sempre lá esteve mas agora ‘vê-se’ mais. E continua-o. A sua voz espanhola lendo um livro de Saramago, sobreposta na voz portuguesa de José - é um artifício da montagem do filme "José e Pilar", mas é também a vida real, duas vozes coladas uma na outra, duas línguas entrelaçadas como as mãos que se agarram várias vezes durante a vida e durante um documentário que merece todos os elogios. O tempo urge e a doença reduz a voz do escritor, ameaçando-o com a morte, com a impossibilidade de escrever mais, de amar ainda mais. Saramago tem muita graça, mesmo muita, como quando, cansado da correria mediática, propõe a história do escritor que mata jornalistas em série. Como um casal, Pilar e José discordam um do outro no banco traseiro do carro ou discutem por causa de Hillary e Obama. Como um par de namorados, ela apoia-se na porta do quarto de hospital de José, triste e irritada com os jornais que querem escrever um obituário precoce. Quando ele diz: "Se eu tivesse morrido antes de conhecer Pilar teria morrido muito mais velho." Pensamos que talvez só o amor impeça a morte. Talvez por isso José diga que quer que Pilar o continue. O escritor que vivia desassossegado e escrevia para desassossegar também diz, sozinho e apaixonado, para a câmara: "Pilar, encontramo-nos noutro sítio." E nós acreditamos, nós só podemos acreditar
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