sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Crónica da Inveja Pura

Neste domingo, 19 de Dezembro, faz vinte anos que morreu Rubem Braga (1913-1990). Mandou a crónica para o jornal Estado de São Paulo e morreu. Braga passou a vida a fazer crónicas, 15 mil, é o único grande escritor de língua portuguesa que só fez crónicas. Crónica pura e dura – isto é, suaves, só quase estilo. Delas, o poeta Manuel Bandeira escreveu: “Braga é o estilista cuja melhor performance ocorre sempre por escassez de assunto”. E ainda melhor: “Ele é sempre bom mas quando não tem assunto é óptimo”.
Bonito mas quase mentira. Rubem Braga tinha assunto, o seu Rio de Janeiro. Era carioca de gema, como por lá se diz. Tão carioca como outra também de gema, Carmen Miranda – ambos, e não por coincidência, nascidos em aldeias distantes ( ela em Marco de Canaveses, Portugal, e ele em Cachoeiro do Itapemirim, no estado de Espírito Santo, filho de português ). Quando um homem ou mulher, de gosto, sofrem logo no nascimento a ameaça de não serem do Rio e depois o destino lhes oferece serem-no, agarram-se a essa condição de cariocas com a fidelidade dos convertidos.
Naturalmente, Rubem Braga era tão bom porque nasceu assim. Era feio, falava mal mas escrevia divinamente. Para esta última parte bastou-lhe ser terra-a-terra, do verbo desengomado. Deus está no pormenor, dizia o outro, e era por aí, no detalhe, no escondido, no sem assunto, que Braga ia. A receita era essa. Mas como todos os grandes cozinheiros sabem, os grandes pratos começam na ida às bancas do mercado. O mercado de Rubem Braga ficava na cobertura, o telhado vivido, de um prédio de 12 andares de Ipanema.
Na verdade, ele só o foi habitar já a meio da vida, décadas depois de já ser grandessíssimo cronista. Mas eu, que também sou cronista, preciso de um argumento para haver um ser humano que atingiu alturas que nem com a mão a fazer de pala para não me ofuscar com o sol dele consigo alcançar. Por pura inveja vou deter-me na tal cobertura.
Um dia, começo da década de sessenta ( e a bênção de Rubem Braga mostra-se também aí, ele viveu no Rio, nesse tempo ), um empreiteiro amigo de intelectuais ( Tom Jobim, Vinicius, Dorival Caymmi, Braga…) avisou no bar que frequentavam que estava a construir um edifício em Ipanema e queria oferecer a cobertura ao cronista. Rubem Braga era caladão, parecia sempre adormecido ( Millôr Fernandes, outro do grupo, dizia: “Se o Braga não escrevesse, seria tratado como um idiota”), mas não era parvo. Aceitou a oferta do empreiteiro e pôs-se logo a desenhar projectos.
Na Rua Barão da Torre, atrás da Praça General Osório, a três quarteirões da praia de Ipanema, no topo de um prédio de apartamentos, ele construiu um jardim. Três camadas de lajes impermeabilizadas, mais meio metro de terra e ficou um jardim que atraía os beija-flores dos vizinhos morros do Pavão e do Cantagalo. Canteiros de flores mas também uma mangueira, uma palmeira, coqueiros, pitangueiras, romãzeiras… Com um óculo de marinheiro ele só acordava depois de ir espreitar as quatro ilhas do arquipélago das Cagarras que defrontavam a praia. Espreitava, voltava os olhos para o seu jardim suspenso e privado e resmungava a sua eterna infelicidade: nunca conseguiu manter um cajueiro, porque as raízes profundas destes acabavam por ameaçar o tecto do vizinho de baixo. Como é possível quererem que ele escrevesse em paz, e em, se nem sequer garantiam este mínimo vital que é viver em Ipanema à sombra de um cajueiro? Zangado, o cronista ia deitar-se na rede vermelha do seu jardim.
Durante o dia, descia às ruas para ver as garotas de Ipanema passar. Envelheceu assim e compôs, sobre si próprio, uma adaptação de música famosa: “Olha que coisa mais triste/ Coisa mais sem graça/ É esse velhote que vem e que passa/ No passo cansado/ Caminho do bar…”. Ao fim da tarde, abria o seu jardim suspenso, e recebia Millôr, Vinicius, Tónia Carrero, Fernando Sabino… Raramente dizia alguma coisa. Muitas vezes se ausentava e eia escrever a sua crónica. Assim também eu, apetece dizer.

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