Quando escrevo a palavra acção, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o c na pretensão de me ensinar a nova grafia. De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa.
Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio. Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes cês e pês me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes, gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: não te esqueças de mim! Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas. O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.
Depois há os intrusos, sobretudo o erre, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hifenes e entraram erres que andavam errantes. É uma união de facto, para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os és passaram a ser gémeos, nenhum usa chapéu. E os meses perderam importância e dignidade, não havia motivo para terem privilégios, janeiro, fevereiro, março são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem p algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.
As palavras transformam-nos. Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do cê não me faça perder a direção, nem me fracione, nem quero tropeçar em algum objeto abjeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um cê a atrapalhar
"Se o pai é o alho e a mãe a cebola, o filho não pode cheirar bem." Provérbio árabe
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Eleições
Encontramo-nos a dois passos de mais uma eleição.
Experimentamos outra vez a azia das pré-campanhas (o que serão exactamente?) e das campanhas, dos ataques e do vazio de ideias que circula à volta dos candidatos (e em especial, lá bem no meio).
Aturamos outra vez os debates (o quê?), os comentadores-dizedores das mesmas coisas que convêm às circunstâncias, as sondagens em que nunca ninguém diz a verdade toda.
E preparamo-nos para mais cinco anos em que se vai dividir (o quê?) para continuar a reinar.
Pensando bem, sinto uma estranha saudade de Antero. Gostava que houvesse outra vez um Antero. Ou umas dezenas deles. Precisava saber quais seriam hoje as causas da decadência dos povos peninsulares, que andam em maus lençóis. E, obviamente, quais as soluções para cada um dos problemas apontados — porque já não temos um regime absolutista para combater, nem uma monarquia para substituir, nem sequer uma ditadura para derrubar à força do doce aroma dos cravos. Temos uma República — e cito o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, mesmo aqui à mão:
« república (latim respublica, domínio do Estado, a coisa pública, governo, administração pública)
s. f.
1. Coisa pública; governo do interesse de todos (independentemente da forma de governo).
2. Forma de governo em que o povo exerce a soberania, por intermédio de delegados eleitos por ele e por um certo tempo.
3. Estado que adoptou! essa forma de governo.
4. Comunidade de estudantes.
5. Infrm. Casa ou agremiação em que não há ordem nem disciplina.
6. Fig. Associação de animais que vivem em comum.
república das letras: classe dos escritores ou dos homens de letras.
Deprec. república das bananas: país ou região em que há corrupção e desrespeito pela legalidade e interesse público (expressão originalmente aplicada a países latino-americanos).»
Res Publica, em que o povo e o “senado” representam e lutam pelos interesses gerais do Estado — algo maior do que o indivíduo, portanto. Mas Maquiavel também terá dito que, em se tratando do Estado, todos os meios são justificados pelos fins. Por esta altura, em Portugal, penso que já ninguém consegue destrinçar quais são os meios e quais são os fins, e ainda menos o que é ou devia ser o Estado.
(Talvez não tenha escolhido, de entre as opções apresentadas pelo dicionário, o significado mais adequado ao contexto. Pode ter acontecido.)
Experimentamos outra vez a azia das pré-campanhas (o que serão exactamente?) e das campanhas, dos ataques e do vazio de ideias que circula à volta dos candidatos (e em especial, lá bem no meio).
Aturamos outra vez os debates (o quê?), os comentadores-dizedores das mesmas coisas que convêm às circunstâncias, as sondagens em que nunca ninguém diz a verdade toda.
E preparamo-nos para mais cinco anos em que se vai dividir (o quê?) para continuar a reinar.
Pensando bem, sinto uma estranha saudade de Antero. Gostava que houvesse outra vez um Antero. Ou umas dezenas deles. Precisava saber quais seriam hoje as causas da decadência dos povos peninsulares, que andam em maus lençóis. E, obviamente, quais as soluções para cada um dos problemas apontados — porque já não temos um regime absolutista para combater, nem uma monarquia para substituir, nem sequer uma ditadura para derrubar à força do doce aroma dos cravos. Temos uma República — e cito o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, mesmo aqui à mão:
« república (latim respublica, domínio do Estado, a coisa pública, governo, administração pública)
s. f.
1. Coisa pública; governo do interesse de todos (independentemente da forma de governo).
2. Forma de governo em que o povo exerce a soberania, por intermédio de delegados eleitos por ele e por um certo tempo.
3. Estado que adoptou! essa forma de governo.
4. Comunidade de estudantes.
5. Infrm. Casa ou agremiação em que não há ordem nem disciplina.
6. Fig. Associação de animais que vivem em comum.
república das letras: classe dos escritores ou dos homens de letras.
Deprec. república das bananas: país ou região em que há corrupção e desrespeito pela legalidade e interesse público (expressão originalmente aplicada a países latino-americanos).»
Res Publica, em que o povo e o “senado” representam e lutam pelos interesses gerais do Estado — algo maior do que o indivíduo, portanto. Mas Maquiavel também terá dito que, em se tratando do Estado, todos os meios são justificados pelos fins. Por esta altura, em Portugal, penso que já ninguém consegue destrinçar quais são os meios e quais são os fins, e ainda menos o que é ou devia ser o Estado.
(Talvez não tenha escolhido, de entre as opções apresentadas pelo dicionário, o significado mais adequado ao contexto. Pode ter acontecido.)
Mas encontramo-nos a dois passos de mais uma eleição. E vamos dar esses passos outra vez, ainda que com a sensação prévia de caminharmos irreversivelmente para o abismo. É assim desde que El-Rei D. Sebastião se perdeu na Batalha (embora eu suspeite que, na verdade, ele tenha fugido).
João da Ega, por seu lado, pensou, um dia, numa solução mais encorajadora para o país - e não era o abismo, era a bancarrota (possivelmente, estaremos mais perto dela do que em nenhum outro momento da nossa História):
João da Ega, por seu lado, pensou, um dia, numa solução mais encorajadora para o país - e não era o abismo, era a bancarrota (possivelmente, estaremos mais perto dela do que em nenhum outro momento da nossa História):
« A única ocupação mesmo dos ministérios era esta — cobrar o imposto e fazer o empréstimo.
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.
[...] Ega gritou sofregamente pela receita. Simplesmente isto: manter uma agitação revolucionária constante; nas vésperas de se lançarem os empréstimos haver duzentos manganões decididos que caíssem à pancada na municipal e quebrassem os candeeiros com vivas à República; telegrafar isto em letras bem gordas para os jornais de Paris, de Londres e do Rio de Janeiro; assustar os mercados, assustar o brasileiro, e a bancarrota estalava. Somente, como ele disse, isto não convinha a ninguém.
Então Ega protestou com veemência. Como não convinha a ninguém? Ora essa! Era justamente o que convinha a todos! À bancarrota seguia-se uma revolução, evidentemente. Um país que vive da inscrição, em não lha pagando, agarra no cacete; e procedendo por princípio, ou procedendo apenas por vingança — o primeiro cuidado que tem é varrer a monarquia que lhe representa o calote, e com ela o crasso pessoal do constitucionalismo. E passada a crise, Portugal, livre da velha dívida, da velha gente, dessa colecção grotesca de bestas...
[...] Ega, porém, incorrigível nesse dia, soltou outra enormidade:
— Portugal não necessita reformas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão espanhola.
E enquanto ele se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via ele a salvação do país nessa catástrofe (...).
— Nisto: no ressuscitar do espírito público e do génio português! Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tínhamos de fazer um esforço desesperado para viver. E em que bela situação nos achávamos! Sem monarquia, sem essa caterva de políticos, sem esse tortulho da inscrição, porque tudo desaparecia, estávamos novos em folha, limpos, escarolados, como se nunca tivéssemos servido. E recomeçava-se uma história nova, e decente, estudando, pensando, fazendo civilização como outrora... Meninos, nada regenera uma nação como uma medonha tareia... Oh! Deus de Ourique, manda-nos o castelhano!»
As palavras são de Eça de Queirós, n’ Os Maias — o eterno retorno de Eça, de quem sempre sentiremos uma irónica saudade. Adoraria tê-lo feito, mas não fui eu que inventei este João da Ega. Descubra o leitor as diferenças entre o século XIX e o nosso. E medite nas semelhanças também.
P.S. (obviamente, Ega não poderia prever que o castelhano também estaria falido...)
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Crónica da Inveja Pura
Neste domingo, 19 de Dezembro, faz vinte anos que morreu Rubem Braga (1913-1990). Mandou a crónica para o jornal Estado de São Paulo e morreu. Braga passou a vida a fazer crónicas, 15 mil, é o único grande escritor de língua portuguesa que só fez crónicas. Crónica pura e dura – isto é, suaves, só quase estilo. Delas, o poeta Manuel Bandeira escreveu: “Braga é o estilista cuja melhor performance ocorre sempre por escassez de assunto”. E ainda melhor: “Ele é sempre bom mas quando não tem assunto é óptimo”.
Bonito mas quase mentira. Rubem Braga tinha assunto, o seu Rio de Janeiro. Era carioca de gema, como por lá se diz. Tão carioca como outra também de gema, Carmen Miranda – ambos, e não por coincidência, nascidos em aldeias distantes ( ela em Marco de Canaveses, Portugal, e ele em Cachoeiro do Itapemirim, no estado de Espírito Santo, filho de português ). Quando um homem ou mulher, de gosto, sofrem logo no nascimento a ameaça de não serem do Rio e depois o destino lhes oferece serem-no, agarram-se a essa condição de cariocas com a fidelidade dos convertidos.
Naturalmente, Rubem Braga era tão bom porque nasceu assim. Era feio, falava mal mas escrevia divinamente. Para esta última parte bastou-lhe ser terra-a-terra, do verbo desengomado. Deus está no pormenor, dizia o outro, e era por aí, no detalhe, no escondido, no sem assunto, que Braga ia. A receita era essa. Mas como todos os grandes cozinheiros sabem, os grandes pratos começam na ida às bancas do mercado. O mercado de Rubem Braga ficava na cobertura, o telhado vivido, de um prédio de 12 andares de Ipanema.
Na verdade, ele só o foi habitar já a meio da vida, décadas depois de já ser grandessíssimo cronista. Mas eu, que também sou cronista, preciso de um argumento para haver um ser humano que atingiu alturas que nem com a mão a fazer de pala para não me ofuscar com o sol dele consigo alcançar. Por pura inveja vou deter-me na tal cobertura.
Um dia, começo da década de sessenta ( e a bênção de Rubem Braga mostra-se também aí, ele viveu no Rio, nesse tempo ), um empreiteiro amigo de intelectuais ( Tom Jobim, Vinicius, Dorival Caymmi, Braga…) avisou no bar que frequentavam que estava a construir um edifício em Ipanema e queria oferecer a cobertura ao cronista. Rubem Braga era caladão, parecia sempre adormecido ( Millôr Fernandes, outro do grupo, dizia: “Se o Braga não escrevesse, seria tratado como um idiota”), mas não era parvo. Aceitou a oferta do empreiteiro e pôs-se logo a desenhar projectos.
Na Rua Barão da Torre, atrás da Praça General Osório, a três quarteirões da praia de Ipanema, no topo de um prédio de apartamentos, ele construiu um jardim. Três camadas de lajes impermeabilizadas, mais meio metro de terra e ficou um jardim que atraía os beija-flores dos vizinhos morros do Pavão e do Cantagalo. Canteiros de flores mas também uma mangueira, uma palmeira, coqueiros, pitangueiras, romãzeiras… Com um óculo de marinheiro ele só acordava depois de ir espreitar as quatro ilhas do arquipélago das Cagarras que defrontavam a praia. Espreitava, voltava os olhos para o seu jardim suspenso e privado e resmungava a sua eterna infelicidade: nunca conseguiu manter um cajueiro, porque as raízes profundas destes acabavam por ameaçar o tecto do vizinho de baixo. Como é possível quererem que ele escrevesse em paz, e em, se nem sequer garantiam este mínimo vital que é viver em Ipanema à sombra de um cajueiro? Zangado, o cronista ia deitar-se na rede vermelha do seu jardim.
Durante o dia, descia às ruas para ver as garotas de Ipanema passar. Envelheceu assim e compôs, sobre si próprio, uma adaptação de música famosa: “Olha que coisa mais triste/ Coisa mais sem graça/ É esse velhote que vem e que passa/ No passo cansado/ Caminho do bar…”. Ao fim da tarde, abria o seu jardim suspenso, e recebia Millôr, Vinicius, Tónia Carrero, Fernando Sabino… Raramente dizia alguma coisa. Muitas vezes se ausentava e eia escrever a sua crónica. Assim também eu, apetece dizer.
Bonito mas quase mentira. Rubem Braga tinha assunto, o seu Rio de Janeiro. Era carioca de gema, como por lá se diz. Tão carioca como outra também de gema, Carmen Miranda – ambos, e não por coincidência, nascidos em aldeias distantes ( ela em Marco de Canaveses, Portugal, e ele em Cachoeiro do Itapemirim, no estado de Espírito Santo, filho de português ). Quando um homem ou mulher, de gosto, sofrem logo no nascimento a ameaça de não serem do Rio e depois o destino lhes oferece serem-no, agarram-se a essa condição de cariocas com a fidelidade dos convertidos.
Naturalmente, Rubem Braga era tão bom porque nasceu assim. Era feio, falava mal mas escrevia divinamente. Para esta última parte bastou-lhe ser terra-a-terra, do verbo desengomado. Deus está no pormenor, dizia o outro, e era por aí, no detalhe, no escondido, no sem assunto, que Braga ia. A receita era essa. Mas como todos os grandes cozinheiros sabem, os grandes pratos começam na ida às bancas do mercado. O mercado de Rubem Braga ficava na cobertura, o telhado vivido, de um prédio de 12 andares de Ipanema.
Na verdade, ele só o foi habitar já a meio da vida, décadas depois de já ser grandessíssimo cronista. Mas eu, que também sou cronista, preciso de um argumento para haver um ser humano que atingiu alturas que nem com a mão a fazer de pala para não me ofuscar com o sol dele consigo alcançar. Por pura inveja vou deter-me na tal cobertura.
Um dia, começo da década de sessenta ( e a bênção de Rubem Braga mostra-se também aí, ele viveu no Rio, nesse tempo ), um empreiteiro amigo de intelectuais ( Tom Jobim, Vinicius, Dorival Caymmi, Braga…) avisou no bar que frequentavam que estava a construir um edifício em Ipanema e queria oferecer a cobertura ao cronista. Rubem Braga era caladão, parecia sempre adormecido ( Millôr Fernandes, outro do grupo, dizia: “Se o Braga não escrevesse, seria tratado como um idiota”), mas não era parvo. Aceitou a oferta do empreiteiro e pôs-se logo a desenhar projectos.
Na Rua Barão da Torre, atrás da Praça General Osório, a três quarteirões da praia de Ipanema, no topo de um prédio de apartamentos, ele construiu um jardim. Três camadas de lajes impermeabilizadas, mais meio metro de terra e ficou um jardim que atraía os beija-flores dos vizinhos morros do Pavão e do Cantagalo. Canteiros de flores mas também uma mangueira, uma palmeira, coqueiros, pitangueiras, romãzeiras… Com um óculo de marinheiro ele só acordava depois de ir espreitar as quatro ilhas do arquipélago das Cagarras que defrontavam a praia. Espreitava, voltava os olhos para o seu jardim suspenso e privado e resmungava a sua eterna infelicidade: nunca conseguiu manter um cajueiro, porque as raízes profundas destes acabavam por ameaçar o tecto do vizinho de baixo. Como é possível quererem que ele escrevesse em paz, e em, se nem sequer garantiam este mínimo vital que é viver em Ipanema à sombra de um cajueiro? Zangado, o cronista ia deitar-se na rede vermelha do seu jardim.
Durante o dia, descia às ruas para ver as garotas de Ipanema passar. Envelheceu assim e compôs, sobre si próprio, uma adaptação de música famosa: “Olha que coisa mais triste/ Coisa mais sem graça/ É esse velhote que vem e que passa/ No passo cansado/ Caminho do bar…”. Ao fim da tarde, abria o seu jardim suspenso, e recebia Millôr, Vinicius, Tónia Carrero, Fernando Sabino… Raramente dizia alguma coisa. Muitas vezes se ausentava e eia escrever a sua crónica. Assim também eu, apetece dizer.
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