segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Esta poderia ser a carta que (quase) todos os alunos se esqueceram de enviar a (quase) todos os Professores:

Algures espalhados pelo mundo,
Algures no meio das nossas vidas,

Caro Professor:
Queremos começar por apresentar um sincero pedido de desculpas, por apenas hoje lhe dirigirmos estas palavras.
A turbulência do tempo, a turbulência dos nossos tempos, faz com que muitas vezes o nosso olhar se desvie de certas coisas, as mesmas que, curiosamente e ao contrário da ordem natural, começam a crescer com a passagem do tempo, a ganhar valor, chegando mesmo a tornar-se impossíveis de ignorar.

Assim, Senhor Professor,

Queremos agradecer-lhe o facto de nos ter recebido de forma especial no meio dos outros todos, e de tê-lo feito sem que eles se tivessem sentido diferentes de nós.

Queremos agradecer-lhe o facto de ter sabido ler nos nossos olhos as nossas dúvidas, nas nossas palavras as nossas certezas, e nos nossos silêncios tudo o que tínhamos neles inscrito.

Queremos agradecer-lhe os trabalhos de casa, os questionários, as fichas de trabalho e os exercícios que nos mandou fazer, mostrando-nos que nada conseguimos sem esforço.

Queremos agradecer-lhe as avaliações, as boas e as más, mostrando-nos que é caminhando com os nossos próprios pés que voamos no céu dos nossos sonhos.

Queremos agradecer-lhe os puxões-de-orelha, os ralhetes e os gritos, mostrando-nos que a indiferença e a presunção são inimigas da perfeição.

Queremos agradecer-lhe as gargalhadas, os sorrisos e os olhares cúmplices, mostrando-nos que trabalho não deve ser sinónimo de castigo.

Queremos agradecer-lhe as experiências que nos proporcionou, mostrando-nos que tudo o que julgamos saber é insignificante face ao que podemos aprender.

Queremos agradecer-lhe os desafios que nos lançou, mostrando-nos o que, sempre que assim o quisermos, somos capazes de fazer sozinhos.

Queremos agradecer-lhe por nos ter atirado sem aviso para o meio dos outros, mostrando-nos que, sempre que precisarmos, podemos pedir ajuda.

Queremos agradecer-lhe, também, a distância que soube manter, mostrando-nos que o afecto é algo que se vai conquistando, e que exige de nós um esforço contínuo para que o tempo não o faça desvanecer.

Por isso, queremos agradecer-lhe por nos ter ensinado o valor das palavras que, às vezes, podem ser insuficentes, leves ou insignificantes, e outras, podem concentrar em si próprias todo o peso do coração dos Homens. E como o Senhor Professor bem conhece o valor dessas palavras, tentamos nós, com a insegurança e a ingenuidade de alunos no primeiro dia de aulas, com estas e outras (as que não foram ditas), preencher uma que, afinal, é bem maior do que às vezes nos parece: OBRIGADO.

E se não somos hoje melhores Seres Humanos, será certamente porque faltámos a algumas das suas aulas, ou porque, simplesmente, não estivemos atentos.

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