quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Eleições

Encontramo-nos a dois passos de mais uma eleição.
Experimentamos outra vez a azia das pré-campanhas (o que serão exactamente?) e das campanhas, dos ataques e do vazio de ideias que circula à volta dos candidatos (e em especial, lá bem no meio).
Aturamos outra vez os debates (o quê?), os comentadores-dizedores das mesmas coisas que convêm às circunstâncias, as sondagens em que nunca ninguém diz a verdade toda.
E preparamo-nos para mais cinco anos em que se vai dividir (o quê?) para continuar a reinar.

Pensando bem, sinto uma estranha saudade de Antero. Gostava que houvesse outra vez um Antero. Ou umas dezenas deles. Precisava saber quais seriam hoje as causas da decadência dos povos peninsulares, que andam em maus lençóis. E, obviamente, quais as soluções para cada um dos problemas apontados — porque já não temos um regime absolutista para combater, nem uma monarquia para substituir, nem sequer uma ditadura para derrubar à força do doce aroma dos cravos. Temos uma República — e cito o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, mesmo aqui à mão:
« república (latim respublica, domínio do Estado, a coisa pública, governo, administração pública)
s. f.
1. Coisa pública; governo do interesse de todos (independentemente da forma de governo).
2. Forma de governo em que o povo exerce a soberania, por intermédio de delegados eleitos por ele e por um certo tempo.
3. Estado que adoptou! essa forma de governo.
4. Comunidade de estudantes.
5. Infrm. Casa ou agremiação em que não há ordem nem disciplina.
6. Fig. Associação de animais que vivem em comum.
república das letras: classe dos escritores ou dos homens de letras.
Deprec. república das bananas: país ou região em que há corrupção e desrespeito pela legalidade e interesse público (expressão originalmente aplicada a países latino-americanos).»

Res Publica, em que o povo e o “senado” representam e lutam pelos interesses gerais do Estado — algo maior do que o indivíduo, portanto. Mas Maquiavel também terá dito que, em se tratando do Estado, todos os meios são justificados pelos fins. Por esta altura, em Portugal, penso que já ninguém consegue destrinçar quais são os meios e quais são os fins, e ainda menos o que é ou devia ser o Estado.
(Talvez não tenha escolhido, de entre as opções apresentadas pelo dicionário, o significado mais adequado ao contexto. Pode ter acontecido.)
Mas encontramo-nos a dois passos de mais uma eleição. E vamos dar esses passos outra vez, ainda que com a sensação prévia de caminharmos irreversivelmente para o abismo. É assim desde que El-Rei D. Sebastião se perdeu na Batalha (embora eu suspeite que, na verdade, ele tenha fugido).
João da Ega, por seu lado, pensou, um dia, numa solução mais encorajadora para o país - e não era o abismo, era a bancarrota (possivelmente, estaremos mais perto dela do que em nenhum outro momento da nossa História):

« A única ocupação mesmo dos ministérios era esta — cobrar o imposto e fazer o empréstimo.
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.
[...] Ega gritou sofregamente pela
receita. Simplesmente isto: manter uma agitação revolucionária constante; nas vésperas de se lançarem os empréstimos haver duzentos manganões decididos que caíssem à pancada na municipal e quebrassem os candeeiros com vivas à República; telegrafar isto em letras bem gordas para os jornais de Paris, de Londres e do Rio de Janeiro; assustar os mercados, assustar o brasileiro, e a bancarrota estalava. Somente, como ele disse, isto não convinha a ninguém.
Então Ega protestou com veemência. Como não convinha a ninguém? Ora essa! Era justamente o que convinha a todos! À bancarrota seguia-se uma revolução, evidentemente. Um país que vive da
inscrição, em não lha pagando, agarra no cacete; e procedendo por princípio, ou procedendo apenas por vingança — o primeiro cuidado que tem é varrer a monarquia que lhe representa o calote, e com ela o crasso pessoal do constitucionalismo. E passada a crise, Portugal, livre da velha dívida, da velha gente, dessa colecção grotesca de bestas...
[...] Ega, porém, incorrigível nesse dia, soltou outra enormidade:
— Portugal não necessita reformas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão espanhola.
E enquanto ele se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via ele
a salvação do país nessa catástrofe (...).
— Nisto: no ressuscitar do espírito público e do génio português! Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tínhamos de fazer um esforço desesperado para viver. E em que bela situação nos achávamos! Sem monarquia, sem essa caterva de políticos, sem esse tortulho da
inscrição, porque tudo desaparecia, estávamos novos em folha, limpos, escarolados, como se nunca tivéssemos servido. E recomeçava-se uma história nova, e decente, estudando, pensando, fazendo civilização como outrora... Meninos, nada regenera uma nação como uma medonha tareia... Oh! Deus de Ourique, manda-nos o castelhano!»

As palavras são de Eça de Queirós, n’ Os Maias — o eterno retorno de Eça, de quem sempre sentiremos uma irónica saudade. Adoraria tê-lo feito, mas não fui eu que inventei este João da Ega. Descubra o leitor as diferenças entre o século XIX e o nosso. E medite nas semelhanças também.

P.S. (obviamente, Ega não poderia prever que o castelhano também estaria falido...)

1 comentário:

  1. Que belo texto! Ler Eça nos nossos dias mostra-nos como o tempo não 'passa'...

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